"MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR": RELANÇADO PELA CASA DO PSICÓLOGO
O MAIS ESCANCARADO, ESCATOLÓGICO E ESCANDALOSO LIVRO DE GLAUCO MATTOSO,
NA COLEÇÃO "ALÉM DA LETRA", ORGANIZADA POR SÉRGIO TELLES
DATA: 19 de junho, segunda-feira, às 19 horas
LOCAL: Rua Mourato Coelho, 1059, esquina da rua Aspicuelta
(Vila Madalena, São Paulo)
PREÇO DO EXEMPLAR: R$ 34,00
CONTATOS DO EDITOR:
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Apesar do título, o "Manual" não é um livro de auto-ajuda, ainda que
satirize os tratados didáticos de erotismo. Alguns consideram esta obra
a mais importante na extensa bibliografia deste paulistano que, aos 55
anos, vem a ser o autor mais "maldito" entre os escritores cegos —
justamente por se tratar de sua autobiografia sexual e literária, na
qual GM recapitula os bizarros episódios que justificam sua reputação de
"cúmulo da esquisitice" (ou da estética "queer", como se diz nos
States), juntando diversos rótulos estigmatizados na pessoa de um
deficiente físico politicamente incorreto: homossexualidade,
sadomasoquismo, fetichismo e outras taras e manias. Mas será que GM é
mesmo esse bicho-papão das letras nacionais, ou terá ele seu lado
bem-comportado e palatável? Afinal, quem é essa curiosa figura?
Antes de perder totalmente a visão, nos anos 1990, GM ganhou destaque
entre os "poetas marginais" da década de 1970 e entre os ficcionistas
pós-modernos da década de 1980. Na fase setentista, sua principal obra
foi um fanzine anarco-poético intitulado "Jornal Dobrabil" (que
parodiava o "Jornal do Brasil"), reunido em livro em 1981 e reeditado
pela Iluminuras vinte anos depois. Na fase oitentista, seu título mais
polêmico é justamente este "Manual", que saiu em 1986 e que — também
após duas décadas — reaparece, ampliado e atualizado, na presente
edição pelo selo All Books da Casa do Psicólogo.
Depois da perda da visão, graças ao computador falante, GM voltou a
produzir intensamente, tendo completado mais de mil sonetos, dezenas de
contos e um novo romance, totalizando vinte volumes só neste início de
século. Sua obra já é reconhecida no exterior, servindo como objeto de
estudo para acadêmicos latino-americanos, estadunidenses e europeus. Mas
tudo começou com o "Jornal Dobrabil" e com este "Manual", como comenta o
autor na entrevista abaixo.
P - Por que a coincidência de reeditar o "Dobrabil" em 2001 e o "Manual"
em 2006, ambos depois de vinte anos? Foi planejado?
GM - Aconteceu naturalmente, como se fosse mais uma das bruxarias que
envolvem minha vida. Vinte anos já significam uma nova geração, e o
público de hoje vivia me cobrando o relançamento dessas obras esgotadas
e quase lendárias. Meus contemporâneos lembram do impacto que o "Manual"
provocou na mídia, da "Folha da Tarde" recebendo cartas de leitores
indignados por causa duma entrevista que dei, ou da Hebe Camargo enojada
ao comentar o livro em seu programa, ou dos cronistas de futebol
ironizando, como o Sylvio Luiz, a cara de pau dum sujeito que confessa
ter atração por pé de homem… E a geração atual sem entender por que um
livro teria provocado tamanho incômodo na crítica e na mídia. O Sérgio
Telles, muito perspicaz, detectou esse permanente interesse que o
"Manual" desperta, e resolveu publicar a segunda edição que eu tinha
pronta na gaveta.
P - Mas esta edição não é exatamente igual à primeira, é?
GM - Não. Acrescentei mais um capítulo para contar o que aconteceu na
última década. Também enxertei fatos e dados que foram omitidos na
primeira edição, coisas que agora já dá pra revelar. O "Dobrabil" foi
reeditado igualzinho, perfeito fac-símile, mas o "Manual" está bem mais
recheado de carne, pimenta e… queijo. (risos) Vai surpreender até a
quem já conhecia o texto antigo.
P - A que você atribui a repercussão do livro como documento literário e
não apenas como um texto de sacanagem?
GM - Ele tem uma estrutura híbrida e fragmentária que atende aos
estudiosos da pós-modernidade e da intertextualidade: mistura prosa com
poesia, teorização com memorialismo, pornografia com sentimentalismo.
Tem uma linguagem ora erudita, ora vulgar, ora castiça, ora informal.
Mas acho que o que mais impressiona os leitores é a franqueza quase
angelical com que eu exponho minhas fraquezas e frustrações e delas me
gabo.
P - Você diria que o livro é cem por cento verídico?
GM - Eu diria que é cem por cento verossímil, porque a literatura não é
feita só de fatos e pessoas, mas também de fantasias e personagens. Por
mais louco que pareça, porém, o livro se mantém fiel a fatos concretos e
pessoas reais. São, como diz o subtítulo, "Aventuras e leituras de um
tarado por pés", mas são aventuras possíveis e leituras inesquecíveis.
Fraquezas transformadas em franquezas. Traumas transformados em tramas.
Chagas transformadas em sagas.