27.1.09

EFIGENIA COUTINHO

criado por telescopionegro    10:28 — Arquivado em: Sem categoria

Talismã
Efigênia Coutinho

Passatempos todos com Amor…
Quantos alimentei desde menina,
eram unicamente as leviandades
da minha seiva, incerta peregrina.

Que vivia num giro turbulento,
entontecida pela doce quentura,
pelos tons ocres e festivos das
emoções da adolescência gárrula!

Passatempos todos com Amor…
Sem devotamentos e promessas,
sem profundeza, sem delírios,
sem beijos, se iam bem depressa.

Até que um dia, arremessada
por uma brisa mágica, descobri
semente de origem bem-fadada,
bem vinda de outras paragens…

Foragida, veio para dentro de mim
pedir guarida na ardência dos
meus afagos e cuidados, e criou
prolongamentos arraigados…

Seduziu-me com alvos sentimentos,
que agora se entretecem e enrodilham
na alma que lhes fez, numa azáfama
de artista, o Amor em júbilo triunfal!

És meu Talismã régio, absorto e , pelo
privilégio de poder possuí-lo, eu cuido
que lhe daria, sem demora, todo meu
amor, afeto, todo meu quente fluido….

Balneário Camboriú
tela: bosch

 

ADRIANA MANARELLI

criado por telescopionegro    9:36 — Arquivado em: Sem categoria

"Jasmim-do-cabo"

A alva noiva
perfuma e ilumina
A escuridão
Enquanto nas entranhas
A besta se revira,
Pomba amorosa,
Navega nos sonhos
De Sulamita e Salomão.

A alva noiva
Tráz a liberdade dos que dormem
Ela premune as pérolas
E os ossos
E nem a lua
Está imune a ela.
Reflete a ampulheta
O confete e o caos,
As dunas
E a neve.

A alva noiva
Brilha nas sombras_
Em meio à casca oca
Sua grinalda
Petrifica as estrelas
Tornando-as pálidas,dispersas e irrecuperáveis.
ADRIANA MANARELLI/ ARAÇATUBA-SP- tela: delacroix
25/01/2009.

 

 

 

26.1.09

DAUFEN BACH

criado por telescopionegro    8:51 — Arquivado em: Sem categoria

“a confissão do impróprio”

antes da confissão do poeta, um lírio sobre a escrivaninha.
deixem apenas uma vela acesa,
nua,
(sem castiçal)
a derreter no tempo junto com as palavras.
não esperem esse tempo de nuvens escuras, pois,
tudo é breve,
o lírio,
a vela e o poeta…
talvez, apenas as palavras fiquem.

permitam ao silêncio
o não ater-se ao uivo medrado das ruas
ou ao lirismo desbaratinado e incomedido…
ao impróprio, verdades primeiras,
roupas que caibam em sua nudez,
(ele não cabe em lugar nenhum)
sentidos? os mais verdadeiros…
lhe permitam uma busca perene
daquilo que lhe é simples e vital,
daquilo que lhe é encontro
e carecido apenas do olhar e do sorrir.

livrem-no do peso ou da conveniência das carapuças,
sem reprimendas ou bajulações.
deixem-no com suas constatações intrínsicas,
âmago e cerne,
com a sua filosofia e criticismo,
com o seu senso comum
e as tautologias prosaicas…

___

é tarde,
cansa-me a revelia das demoras.
minha obsessão é uma síntese de gestos e de caprichos
que insiste em despedir no verso
a raiva de ter nascido um sentidor…
as páginas, brancas, estão a espera do preenchimento.
parto-me,
reparto-me e me distribuo em todas.
em cada uma delas muitas angústias e tantas dores.
na iminência, o nada,
como se não houvesse concretude e antídotos de conforto.
apressado, termino como um grito,
um aceno não visto e não ouvido.

quem me dera reescrever a teoria de Baudelaire
e corresponder então,
além dos perfumes, das cores e dos sons,
todos os sentimentos e amalgamá-los…
quem me dera, na mediocridade de poeta não sabedor,
compor metáforas que sublimassem em perfumes
a intensidade e toda a efemeridade do viver.
em sons, cantos angelicais… todos os gemidos inaudíveis.
em cores radiantes, todas as madrugadas escuras e sem luas
e pudesse escrever poemas que fossem apenas ilusões.

três vezes a consciência do olho aberto,
três vezes o despertar sem ainda ter dormido…
esta minha “out side art” que me leva
e me eleva aos versos de um poeta tuberculoso,
enquanto submergido em fractais caleidoscópicos,
traz a novidade que não tem o tamanho
das contrições,
da doutrina que me pôs cativo.

muitas faces no poema…
em qual delas existo?
em qual das ilusões minha tez envelhecida
ganhou uma vida a menos e passou a ter fome de paraíso?
não me contento com o querer ser ou com o deixar de ser,
com o existir apenas por existir…

ternura, onde foi que te encontrei?
minha carne incorruptível,
minha sanha bandida e avessa que goza
os vícios e os faz oportunos,
onde achou os traços do beijo na testa?
das lágrimas espremidas no canto do olho,
a descerem como se fosse eu um bichinho doente?

desdobrável, raiz envergonhada,
meu subterfúgio, um parto de licenças poéticas
que me afunda nos reinos em que, servo, inauguro
a minha maldição de escrever a amargura
vestida de uma desculpa cabível,
que não evoca os rancores,
os remorsos,
as mentiras…
este rodeio de frases,
como um canto ao meu nome numa lápide.

não me interessam os corpos bonitos,
as noivas virgens…
em cada esquina seios fartos e pernas lisas,
em cada esquina um orgasmo em oferta
para que eu cumpra o meu papel de michê…
não me importa se, vadias ou matronas embevecidas,
importa-me os sentimentos sem governos, mas leais,
o regalo daquela em que, fiel, doi e se condoi
(como canção de caixinha de música)
e expõe o bicho do corpo como órfã em véspera do sono.

onde escrevo o que não há palavras?
onde, moribundo, confesso os meus pecados?
não me servem mais os dias,
tampouco as noites.
não existo mais para a magnitude das coisas,
para os sorrisos e para a compreensão…

minha confissão,
uma vela,
um lírio
e as palavras que ficam para “o eternamente”.

daufen bach. tela/salvador dali

 

 

21.1.09

EFIGENIA COUTINHO

criado por telescopionegro    14:52 — Arquivado em: Sem categoria

Flocos de Neve Poema
Dedicado ao meu filho
Moacyr Mallemont


52 Reeve Place #2
Brooklyn NY
Aqui nesta paisagem infinitamente bucólica,
tirada da porta da casa onde fiquei em New York.

FLOCOS DE NEVE
Efigênia Coutinho

Ao primeiro momento, os Flocos de Neve
se parecem com borboletas bailando leve,
rodopiam pelo ar com tal graciosidade
colorindo nosso sorriso de verdade…

Flocos de neve, caem silenciosos,
seu trajeto é todo monótono
e tudo à nossa volta é branco,
como branco é o céu e o banco.

Pela perfeita geometria dos Flocos de Neve,
percebo sintonia e sua singularidade
uma renda, de sonhos e felicidade.

Esse reflexo da força vital da natureza
nada apaga aos olhos tanta realeza…
Ó Flocos de Neve, quanta nobreza!
New York - in férias
OBS: Fotos tiradas por Efigênia Coutinho

 

 

 

5.1.09

ADRIANA MANARELLI

criado por telescopionegro    17:14 — Arquivado em: Sem categoria

"Tótem"
(Adriana Manarelli)(06/01/08)

para o Reverendo André Luís Pires de Souza

Ébano e marfim
Manipulando ouro.
Oscilações
(Im)perfeitas
Dominações
Inflamáveis.
Perplexos deslumbramentos
Barro,prata e pó.
Tribuna,aura e leito,
Três pássaros banindo o só .
Trincheira condescendente
Sacro,profano, atemporal.
Colostro-colosso-ônix
Dies:Van e Tau.
Repouso adejando o eito
Afaga Amata
O negro cipó.
A fada maga
A branca nata
A rama dourada
Lambendo o só.
Então as pedras,após o zaino
A cratera pálida_E o dó?
A alba incauta e o filho pródigo:nó.

tela/monet



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